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domingo, 18 de março de 2012

Internet, Pecado e Traição


‘Olá, Val*.
Provável que você já tenha ouvido sobre mim.
Sou Simone*, esposa de Paulo*, o homem com quem você tem conversado através de bate-papo e mensagens privadas.
Sou cristã e tenho dois filhos com ele e acabo de pegar vocês no flagra.
Meu casamento acabou.
Tenho pensado em tirar minha vida, mas não farei isso.’
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Recebi esse recado, por engano, na minha caixa de mensagens do Facebook e mil coisas se passaram pela minha cabeça.

domingo, 4 de março de 2012

Um Sorriso Que Não Desbota

Nota: Só Deus sabe o quanto me sinto grata por escrever sobre Sandrinha, a mulher que me ensinou a alegria de Deus sobre todas as coisas. (Luciana Leitão)
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Deitava seu rosto sob o instrumento curvilíneo e ditava suas preces pelas pontas dos dedos até que chegassem a Deus.

Todo mundo saberia reconhecer aquela canção sem letras que teimava cantar fé. 

Aquela era canção de Alessandra, uma mulher que nunca desaprendeu sorrir.

Ainda menina, sofreu paralisia infantil e, desde então,

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Uma História Sobre Perdão E Cura

Todos nós temos nossos ritos e com Mirian não era diferente. 

Todos os dias, depois do trabalho, Mirian preparava seu jantar, arrancava os sapatos e, com o prato nas mãos, encolhia-se em frente da TV até que seu programa preferido terminasse.

Era Agosto.
Era sexta.
E estava um dia frio lá fora.

A TV já tinha sido ligada e o jantar, pronto.  Mas seu olhar não saia da carta que havia sobre a estante.

Era uma carta de sua mãe pedindo um encontro com ela e sua irmã, Mayla.
.

Seus pais haviam se separado fazia algum tempo e as meninas viveram com sua mãe, e com o padrasto, durante um pouco mais de três anos.
Viviam bem, apesar da saudade que tinham do pai e dos momentos constrangedores em que tinham que responder, na escola, algo sobre família.
Nunca sabiam quem desenhar no papel quando a professora pedia:
 

-Desenhe a família de vocês e depois diga algo sobre cada um deles.

Naquele tempo, tinha riso, e macarrão, aos domingos. Foi um tempo bom até o dia em que Miriam viu sua irmã, Mayla, saindo do banheiro com seu vestido amassado e mãos tremulas.

Mayla estava pálida e seus olhos se recusavam a olhar os de Miriam enquanto essa a questionava sobre o que tinha acontecido.

Mayla apenas derramou lágrima.


Poucos minutos depois, saiu o homem alto das palavras corpulentas com um sorriso estranho no rosto.


Mayla se trancou no quarto e passou quatro dias sem comer.


Miriam, ainda menina, não sabendo lidar com a situação, foi falar com sua mãe sobre o acontecido e teve como resposta o desprezo:



- Nunca mais diga isso, Miriam! Vocês não passam de duas crianças mimadas! Se voltar a tocar nesse assunto, as mando para a casa de seu pai!

Ouvir isso era desesperador! 

Seu pai era alcoólatra e possuía atitudes ásperas.
Quando seus pais ainda moravam juntos era constante o barulho de coisas quebrando e gritos ecoando pela casa.

Sempre que seu pai vinha bêbado, Mayla e Miriam, por medo, juntavam suas camas e dormiam de mãos dadas. Uma protegia a outra.

 –Miriam, promete que a gente vai ficar juntas ‘para sempre’ e pra ‘vida toda’? -Mayla perguntava.

A dor e o medo as tornaram próximas.
Quando estavam juntas, se sentiam seguras.

Infelizmente aconteceu, de novo, a mesma história e os mesmos olhos tristes de Mayla.

Tornara-se comum Miriam ouvir, de madrugada, Mayla sufocando o choro no travesseiro ou agitando-se no meio da noite, por culpa dos pesadelos.
Mais uma vez, Miriam procurou sua mãe e, por isso, as duas foram mandadas para a casa de seu pai.

.


Como seu pai não tinha responsabilidade alguma com elas, Mirian começou a trabalhar cedo para cuidar dela e de sua irmã.

Seu pai era tão ausente que elas mal se lembravam de que tinham um.


Desde então sua mãe nunca fez esforço algum para se aproximar das meninas; o máximo que fazia era mandar, no Natal, um cartão com um ‘eu te amo, minhas filhas’ em letra graúda.


-Amor? Mamãe não sabe o que diz! _dizia Mayla sempre que lia os cartões.

.

Miriam aprendeu a ser amiga, mãe e irmã de Mayla.

Aprendeu a dar bons conselhos sobre meninos e xícaras de chá em noites de frio.

Apesar de seu passado, Mayla tinha se tornado uma mulher forte e cheia de vida.
E, com o tempo, a vida colocou as coisas em seu devido lugar: Mayla tinha emprego e cursava faculdade enquanto Miriam vivia entre trabalho, casa e aulas de inglês.
.


Passou o tempo e os olhos de Miriam ainda estavam grudados naquela carta.
Não sabia o que fazer com ela.

Mayla tinha temperamento forte, sempre deixou bem claro que não compreendia nem aprovava as atitudes da mãe.
-Ela nunca esteve perto. Não sabe nada sobre nós, Miriam! E ainda tem coragem de escrever ‘eu te amo, minhas filhas’! _disse em tom irônico quando recebeu o ultimo cartão de Natal.
.

Mayla chegou.

Era fácil saber quando era Mayla pelos corredores: ela sempre fazia barulho!
Subia as escadas de um jeito apressado e falava, rindo, com o porteiro e com a limpadora de apartamentos.
Silêncio nunca fora sua maior virtude.

-Tá frio, tá frio, tá frio! _disse Mayla tirando as luvas e a boina.
-Mayla, preciso falar com você!
-Claro! Só vou pegar algo na cozinha, estou faminta! Sobre o quê é?_ perguntou Mayla deixando sua bolsa no sofá e correndo pra cozinha_ -Pode falar que eu presto atenção!
-Mamãe mandou uma carta bem diferente dos cartões de Natal. Ela quer conversar com a gente.

Silêncio.

-Mayla, você ouviu?
-Ouvi! _respondeu da cozinha.

Mayla voltou da cozinha com uma xícara de chocolate quente e pediu:

-Me deixa ver isso! _disse Mayla, pegando a carta nas mãos.



As letras eram graúdas e as pontuações, erradas.
O papel estava um pouco amassado e as palavras tinham sabor de saudade e arrependimento.
Tudo o que ela pedia era uma segunda chance, um abraço e a promessa de que tudo voltaria a ser como antes.

Na carta dizia que ela havia sido traída pelo 'homem alto de palavras corpulentas' e que  sentia muito pela dor que causara a elas.

Ela estava arrependida
As palavras diziam isso nas entrelinhas
Só não tinha, ainda, pedido perdão.

-Mayla, é hora de encararmos, de frente, a nossa história.
-Mamãe nunca soube nada sobre o amor, Miriam!
-Mas nós podemos ensinar!
-Você nunca desiste das pessoas, não é?!
-Mayla, lembra-se da mensagem que ouvimos? Daquele texto que está na Bíblia e nos ensina o amor...

Miriam e Mayla tinham começado a frequentar uma igreja e tinham a Bíblia grifada no texto:



O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.
O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece’.
 I Coríntios 13



-Mayla, essa é a nossa chance de perdoar e acabar de vez com essa dor que sempre volta!
-Mais dói muito, Miriam!
-Eu sei Mayla, mas você não está sozinha, sempre vou estar com você! Vai dar tudo certo. Eu prometo.

Miriam abraçou Mayla como não fazia há anos.

Mayla parecia uma criança pedindo pra ser protegida e Miriam se fez, inteira, consolação.
Todas as dores vieram à tona.

Todos os seus medos passaram por elas. Um a um, com todos os nomes e faces que possuíam.

-Não vou conseguir Miriam. É muito difícil.- Disse Mayla, baixinho.
-Deus nunca disse que seria fácil, Mayla.
.

A semana passou e o encontro aconteceu.

Aconteceu também choro, abraço e histórias de ‘quando vocês eram crianças... ’.
Aconteceu vida da forma mais pura que existe quando se dispuseram a derramar perdão por todas as ausências, e distancias. Pelo 'não amor' recebido e pela proteção que ela nunca deu.

Aconteceu cura!
.

Mayla, após perdoar sua mãe, mudou.
Começou a viver ainda mais leve e a sorrir mais vezes.

Seus lábios começaram, também,  dizer canção.


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Nota: Os nomes foram alterados para proteger a privacidade das irmãs.




Abraços,




domingo, 29 de janeiro de 2012

O Menino Que Queria Roubar Aviões


Fabinho é um menino de pele clara e olhos escuros, lindíssimo!
Qualquer menina de quinze anos teria que fazer malabarismos para não se apaixonar.

Por saber da minha paixão por historias, sentou-se na calçada e me contou do seu sonho de criança:

-Quando criança meu sonho era roubar aviões!

-Roubar aviões?! _exclamei.

Ele riu da minha aguçada e pontiaguda curiosidade e prosseguiu. Contou-me que, de onde morava, sempre avistava pequenos aviões no céu. Decorou os horários em que eles passavam e assim que o tempo se aproximava, corria para a varanda e, ansioso, esperava.
Segundo Fabinho, naquele tempo, ele ainda não sabia ler relógio e por isso quem ditava as
horas era o céu:

-Quando o sol já estava fraco, e começava a se esconder atrás do muro alto, era hora de ir ver aviões! –me confessou com um sorriso grande nos lábios.

Assim que os aviões passavam, Fabinho se esticava todo: levantava as mãos, abria os dedos e ficava na ponta dos pés.

Mesmo se fazendo o mais alto que podia, o pequeno avião escapava por entre seus dedos.
 E ai acontecia a frustração.

Nunca ninguém levou a serio os olhos tristes do menino quando voltava da varanda.

-O Fabinho e esses aviões! É sempre a mesma história! _dizia a irmã mais velha com voz de quem pensa entender de dor.

Um dia seu avô o vendo cabisbaixo, devagar, se aproximou:

-O que houve, Fabinho? Quer conversar?

-São os aviões, vovô. Nunca consigo toca-los, estico meus braços, me ponho na ponta dos pés e nada! Eles se vão pra longe e eu os quero pra mim. _falou em voz pequena.
O avô riu.

Mas não um riso alto e de pouco caso.
Riu um riso de quem compreende o que é ser menino.
O avô sentou-se, o trouxe para perto, e falou:

-Fabinho, meu pequeno menino, lá de cima o avião te vê pequeno, como formiga! Mas eu posso te contar um segredo que fará com que seu coração fique, a cada dia, mais perto do céu.

-Como a gente faz pra ficar mais perto do céu, vovô?

-A gente fecha os olhos e acredita!

-Acredita em quê?

-Acredita em Deus! Acredita que, amanhã, a vida pode ser mais bonita, e pede pra Deus acreditar na gente; porque só gente como a gente pode fazer o mundo se tornar um lugar melhor.

Fabinho, sem entender muita coisa abraçou o avô e guardou as palavras para quando elas fizessem sentido. Afinal, o tempo sempre decifra esses enigmas que a gente leva no bolso. Ou não.

O tempo passou e Fabinho percebeu as grandes verdades na voz de seu avô.

Hoje o menino, que já não é mais menino, aprendeu que amando a Deus é possível ficar mais perto do céu. Quando passa avião, Fabinho sorri, fecha os olhos, e coloca o coração lá em cima, perto das nuvens e de Deus.

Nota: Ouvi a historia de Fabinho cerca de cinco anos atrás e prometi , para mim mesma, que um dia escreveria sobre ela. Afinal, não é sempre que a gente encontra uma história tão doce dando sopa por aí, não é?!                                                                                                            Abraços,



domingo, 8 de janeiro de 2012

Amizade Cor de Chumbo

Tínhamos 15 anos e uma amizade cinzenta, cor de chumbo derretido.


Não me lembro de como nos tornamos amigas; lembro apenas que, tanto ela quanto eu, nunca éramos convidadas para os jogos durante o intervalo e, muito menos,  para as festas das meninas mais populares do colégio.

Acho que nos tornamos amigas por não ter outra opção.

Fato é que ela era minha única amiga e por isso o título de‘melhor amiga’ era dela.
Apesar de sermos opostas em quase todas as áreas, juntas, aprendemos o respeito e a dedicação que uma amizade exige.

Foram praticamente quatro anos de amizade aprendida; amizade que precisava se fazer conquistada.
No quarto ano, nossa amizade começou a criar traços mais leves e cores mais bonitas mas, mesmo assim,  teve um fim.
O que aconteceu?

Bem, eu mudei.
Mudei de turno.
Comecei a trabalhar e isso me levou a outros caminhos.
Percebi que nossa amizade não tinha apenas cor de chumbo, mas também era feita de papelão. 
Choveu distância e pronto: a amizade desbotou, rasgou, virou nada!

Se foi a mudança que tive ou a ‘não mudança’ dela que nos fez distantes, não sei.
Mas sei que sinto falta dela.
Sinto falta das risadas durante o intervalo e dos passeios até a biblioteca.

Ela era ótima aluna e nossas notas eram motivo de muita competição.
Não era uma competição rude ou ciumenta, era competição divertida: 
ela sempre ganhava em matemática e eu sempre vencia em filosofia.

Sinto saudade dela. 
Dela e de inúmeras pessoas que passaram pela minha vida. 

Pessoas de alma e pessoas possuídas pela ambição.
Pessoas de tamanhos diferentes e com a alma do tamanho do mundo.
Pessoas que jamais dividiam um chocolate e, outras, que sonhavam em dividir uma vida.

Inúmeros contrastes, múltiplas diferenças, mas sempre pessoas.


Ano passado fiquei sabendo que o pai dela morreu. 
Fiquei sem rumo.
Minha amiga perdeu o pai eu não estava lá.
Me sinto culpada.
Tentei de algumas maneiras entrar em contato.  
Não consegui.
Doeu mais ainda.

Minha amizade cor de chumbo me ensinou que a gente nunca sabe quando será o último dia, quando os passos irão se desencontrar, quando seremos assaltados pela vida ou levados pela distância.

Se eu pudesse voltar atrás, deixaria minha amizade um ou dois tons mais clara.
Falaria mais vezes o quanto seus conselhos eram importantes e não pouparia nem um abraço sequer.

Perdoaria mais vezes e mais rápido.
Me importaria menos com as notas e mais com os intervalos.
Falaria mais sobre aquele moço estranho que ela paquerava e até bancaria a cupido.

Essa foi a única amizade cor dechumbo que tive.
 Hoje tenho amizades verdes, azuis e brancas e devo isso a ela, a pessoa que me ensinou a ser amiga.
É uma pena que ela nem desconfie disso.
Abraços,

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Aprendi. Doeu, Mas Aprendi.



      
 


Como sou nova aqui no blog, sei que muitos ainda não conhecem minha história.

 Pois bem, para resumir, em Julho de 2011 sofri umacidente de moto tão grave que estar viva pode ser considerado um milagre.

Esse acidente me deixou limitada e roubou minha rotina.Perdi a faculdade, o emprego e todos os planos que tinha para este ano que,daqui a pouco, vai acabar.

 Embora tenha sidoum ano de dor, confesso que foi um tempo rico de significado e fé.
Fiz, para mim, algumas anotações sobre o que Deus meensinou nesse período e escolhi, com cuidado, três lições para compartilhar comvocês. Aqui estão:

-Aprendi que caminhar com Deus não nos priva dasdificuldades, mas somente Sua Presença nos ampara, consola e fortifica. E issofaz toda diferença;

-Aprendi que as tempestades, por mais fortes que sejam,passam e que nenhuma dor é pra sempre;

-E, por fim, aprendi que, com Deus, podemos florescer emtodas as estações, inclusive nos rigorosos invernos da alma.

  Minha prece para2012 não é por um ano perfeito, mas para que a presença de Deus seja constantee que meu coração continue aprendiz.

Que Deus nos de um ano repleto de significado e beleza.

Abraços,


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sara


Todo mundo tem um borrão naalma.
Não importa o passado que tenha tido, há sempre um pedaço rabiscado,
mal feito, cheio de sombras.

Eu estava lá quando mancharam a alma da menina.
O nome dela?
Sara.

Sara tem um sobrenome que não lembro, não é de família importante.
Também não é ’Silva’.

Aconteceu numa tarde em que o sol e o frio disputavam o mesmo espaço.
O ano era mil novecentos e alguma coisa, não lembro bem.
Alias, não lembro de um monte de coisa e por esse motivo este texto será cheiode ‘não sei’.

A menina estudava no mesmo andar da biblioteca.

Triiiimmmmmmmm _ tocou o sinal.

Irritante, por sinal!
Detestava aquele som agudo mais do que detestava os números!!!

O chão era de madeira, madeira velha, coisa de escola centenária.
Ouvia uma multidão de passos apressados, passos e mais passos,
todos juntos.

Guardei o livro para descer.
Entre a escada e a biblioteca, estava a classe de Sara.

Pobre Sara.

A pequena multidão com cadernos nas mãos desaceleraram os passos.
Ouvia risos abafados e olhares de cumplicidade entre eles.
Algo estava para acontecer.
A gente percebe quando há um ar de ‘coisa nova por acontecer’ ,ainda mais no colégio, onde essas coisas ficam ainda mais grossas e ásperas queo normal.

Me fiz mistura entre eles.

O local onde a pequena multidão se instalara era em frente à sala de Sara.

-O que havia ali, afinal?_questionava-me.

Quase todos da sala saíram, menos quem a pequena multidão queria.
Esperaram.
Esperaram um pouco só, menos de um minuto e meio.
Não estou bem certa se o tempo foi esse, nessas horas a alma da gentenão sabe contar.

-Sara! Sara! Tem gente querendo falar com você!!! _disse uma moça feia de olhosazuis.
Sim, era feia, apesar dos olhos azuis.

Apareceu Sara.

-Sara?! Sara não é nome de princesa? Quem teve coragemde dar esse nome a essa menina? Céus!!! _exclamei naalma.
Era muito contraste!
nome e a menina.
Sara não era apenas feia, era também muito desengonçada.

Seus cabelos eram longos e ondulados, seriam perfeitos se não fossem tãoarmados.
Tinha olheiras arroxeadas em volta dos olhos, sorte dela que tinha olhosclaros, afinal, a natureza também tem suas atitudes de misericórdia.
E por fim, era gorda.

GOR-DA!

Engraçado como essa palavra parece palavrão, né?
Quando a gente fala ela, da impressão de ter cometido pecado.

Sara chegou com um sorriso no rosto.
Um daqueles sorrisos que a gente,
entrega de presente a um amigo.

Dezenas de olhos sobre a menina.

A pequena multidão não disfarçou, encarou Sara como se quisesse devorar todaalegria que ela possuía.
Sara guardou o sorriso no bolso e deslizou os olhos entre aqueles que arodeavam.

Os olhos de Sara gritavam por resposta.

Silêncio.
Pequenos estalos de risos contidos.


Ela era a piada, mas qual piada?
Ninguém a contara ainda.

Surgiu da pequena multidão um moço.
Vou descrevê-lo, embora a lembrança de sua atitude me causenáuseas.

Alto, cabelo escorrido.
Olhos castanhos, cabelo escorrido.
Lábios finos, cabelo escorrido.
Tinha cabelo escorrido e ar de quem gostava de maldade.

Desculpe a redundância na descrição,
mas foi assim que minha alma o fotografou.

Os olhos dele passaram pela pequena multidão sorrindo e pedindo atenção.

Silêncio de novo.

De alguma maneira todos sabiam que era para fazer silêncio,
o menino de cabelo escorrido iria falar.

Aqueles olhos castanhos do menino caíram sobre a pequena Sara deslizando dorosto para o pescoço, barriga, quadril, até chegar aos pés e fez,vagarosamente, o caminho de retorno.

Naquele momento tudo que se ouvia era
o silêncio e o coração de Sara.

Tum tum. Tum tum. Tum tum.

O menino do cabelo escorrido quebrou o silêncio,
como quem quebrara um ovo a marteladas.

-Sara? É este teu nome? Já sabes o quanto és feia?! _ disse o menino rindo-se.

Sara manteve seus olhos sobre ele, não recuou o olhar, nem tão pouco corou suaface.
Correu os olhos pela pequena multidão.
Um a um, até todos saírem.

A pequena multidão saiu rindo, feliz.
A alegria contida na tristeza 'do outro' nunca fora tãovisível para mim.

-Que culpa Sara tem de ser feia?! _perguntei para a Vida.
Não tive resposta.
A Vida sempre deixa as perguntas mais difíceis sem resposta.

Aquela tarde se partiu, e outras tardes também,
mas a imagem de Sara não.
Não a encontrei pelos corredores, nem na biblioteca.
Não a via em lugar algum.
A vi depois de três meses, no banheiro.
Seu cabelo armado estava preso no alto da cabeça e seus olhos estavam fixos emsuas próprias mãos enquanto as lavava.
Em nenhum momento Sara se olhou no espelho.

Quando ergueu os olhos notei que eram os mesmos.
Nem altos,
nem baixos.

Olhar de quem desconfia da vida mas que esta disposta a arriscar.

-Como pode? Sara encarava a vida, o desconhecido e a ironia,
mas não ousava olhar-se no espelho?

-Aposto que nem sabe a cor que seus olhos tem! _pensei

Ao passar por mim Sara sorriu:

-Boa tarde._disse ela.
E seguiu rumo à porta.

Queria lhe dizer milhões de coisas.
Pedir perdão por estar na 'pequena multidão'.
Dizer a ela para não se importar com as palavras do menino de cabelo escorrido.
Mas não disse.

Quando Sara estava abrindo a porta a única coisa que saiu foi:

-Moça! _disse eu no mesmo tempo em que pensava no que iria dizerdepois disso.
Ela se voltou para mim e respondeu com um sorriso:
-Oi?-Queria te pedir perdão eu estava lá quand...
-Eu sei, eu a vi, tudo bem..._respondeu ela com um sorriso de quem conhece operdão.
-Lizzie. Meu nome é Lizzie.
-Sara, prazer._respondeu com sorriso nos olhos.

Éramos estranhas e ao mesmo tempo tão iguais.

Existem coisas na vida que a gente não explica.
-Tenho que ir, Lizzie, boa aula para você.
-Sara!
-Oi?
-Você tem um sorriso lindo!_disse com sinceridade.
-Obrigada._sorriu como quem não está acostumada com elogios.




Ela parecia reagir com mais naturalidade a um insulto do que a um elogio.
Havia um abismo de distancia entre nós, mas éramos feitas do mesmo material.
Conhecer Sara foi um aprendizado, foi ela
quem me ensinou que 
é preciso encarar a vida mesmo quando se tem manchas imensas naalma.


"Perto está o Senhor dos que tem o coração quebrantado."   Sl 34:18

Abraços,